Ai tu queres ser feliz, idiota?

Eu não sou pessoa de acumular superstições, palavra de honra que não sou, mas há alturas da minha vida em que fico com sérias dúvidas se será efectivamente a Física a ditar as leis deste Mundo em que vivemos. O Einstein que me perdoe esta traição mas é a mais pura das verdades. Nos tempos da faculdade, nunca me preocupei com aquela cena de entrar com o pé direito na sala de exame e ria-me dos indivíduos que, não tendo estudado nada, alimentavam a secreta esperança de que, entrando com o pé direito, haveria de se dar o milagre de sair exactamente aquela pergunta, a única cuja resposta eles tinham perdido dez minutos a decorar. Também não me preocupo com os gatos pretos que se atravessam no meu caminho. Sinceramente, nunca gostei de gatos, sejam eles pretos, brancos ou amarelos, pelo que a cor não me interessa absolutamente nada no momento de lhes dar um chuto (Abro aqui um parêntesis para ressalvar que neste capítulo não se incluem certas gatinhas que se atravessaram no meu caminho e que, essas sim, já me deram muita sorte nalguns casos e muito azar noutros. Mas isso é outra conversa. Adiante que se faz tarde). No entanto, sempre tive a mania de que os anos ímpares me dão azar, talvez porque as piores coisas que alguma vez me aconteceram na vida tiveram a infeliz coincidência de calharem em anos ímpares. Mesmo assim, no início de cada ano ímpar, eu tento sempre renovar o meu optimismo e pensar “Naaa, desta vez não será assim! Este será o melhor ano da minha vida!”. Pois...
No primeiro minuto de 2007, ressoava ainda pelas paredes a última badalada da meia-noite e as pessoas empurravam as uvas-passas pela garganta abaixo a goladas de champanhe, dediquei-me eu em silêncio a um ritual pessoal de longa data. Há muitos anos que, nesta ocasião, gosto de fazer uma introspecção, rever mentalmente aquilo que fiz no ano anterior e estabelecer os meus objectivos para o novo ano que ali começa. Dantes, quando ainda me regia pelas ilusões próprias da juventude, esta operação mental demorava alguns minutos dada a extensão da lista de objectivos, geralmente agravada pelo acumular das tarefas anteriores não concretizadas. Actualmente, bastam-me poucos segundos para o fazer. Acho que cheguei a uma fase da vida em que as coisas que verdadeiramente desejo e me fariam feliz se contam pelos dedos de uma mão.
No entanto, o destino é irónico. Irónico e filho da puta. Por vezes penso nele como um tipo gordo, feio, arrogante, mal-criado, a cheirar a vinho carrascão, que arrota e se peida, e se ri dos disparates que ele próprio inventa. Está sentado numa cadeira lá em cima no céu de onde nos controla com cordéis presos às mãos e aos pés, como se todos nós não fossemos mais do que meros bonecos num teatrinho de marionetas. No início deste ano, o gordo leu os meus pensamentos e disse -“Ai tu queres ser feliz, idiota? Então espera lá que já te fodo!”. E começou a dança. À minha avó, senhora de 83 anos, detectaram-lhe um tumor maligno no intestino e, em menos de dois meses, operaram-na três vezes, sempre com prognóstico muito reservado. Aguentou, mas continua agarrada a vida como pode, a rezar para que o gordo não lhe corte os cordéis e a deixe cair de vez. Ao meu pai detectaram-lhe um tumor maligno no estômago e sacaram-lhe os dois fora (o tumor e o estômago), mais um pedaço do fígado, uma fatia do baço e um bom bocado da sua força e alegria. Para os primeiros meses do ano ímpar, não está nada mal, não senhor! Esforçaste-te bem desta vez, gordo do caralho, mas uma coisa te digo: aproveita agora para te rires porque, no dia em que eu chegar aí acima, vais levar com a cadeira nos cornos! Tão certo como E=mc2!
publicado por Rui Moreira às 12:15 link do post | comentar | favorito