O fetiche da gaita

 

Se procurarmos a definição de nanossegundo num dicionário, encontraremos qualquer coisa como isto:
 
“Nanossegundo: medida de tempo equivalente a 10-9 segundos e cuja abreviatura é ns.”
 
Em qualquer livro de Física, poderemos encontrar ainda outras definições científicas, tais como esta:
 
“Nanossegundo: período de tempo durante o qual a luz percorre 29,9792458 cm no vácuo.”
 
Interessante, sem dúvida. No entanto, a definição de nanossegundo mais curiosa que eu alguma vez li foi a seguinte:
 
“Nanossegundo: lapso de tempo que decorre desde que o semáforo fica verde e o carro de trás começa a apitar.”
 
Presumo que esta afirmação não se baseia em nenhum estudo científico nem que tenha sido escrita até hoje alguma tese de mestrado sobre o assunto, mas a verdade é que qualquer cidadão habituado a circular com o seu automóvel nas ruas das nossas cidades concerteza não terá grande dificuldade em aceitá-la como verdadeira, ou, no mínimo, em dar-lhe o benefício da dúvida. De facto, já todos experimentamos aquela irritante sensação de estarmos parados num semáforo, exactamente no primeiro lugar da fila, e levarmos uma buzinadela do imbecil do carro de trás imeditamente a seguir à passagem da luz de vermelho para verde. Há indivíduos que acham que devem ter passado ao lado de uma grande carreira de pilotos de Fórmula 1 e que, quando se encontram na fila do semáforo, se imaginam na grelha de partida do Grande Prémio do Mónaco, ao volante de um Ferrari. Já que não podem sair disparados ao sinal verde, desatam a buzinar, que é a sua forma de dizer “Se isto fosse uma corrida a sério, eu já ia na primeira curva e vocês ainda estavam a arrancar, suas lesmas!” Foda-se, não há ninguém que lhes dê um banho de champanhe gelado (espumante rasca também serve) pela cabeça abaixo que é para ver se estes gajos esfriam a moleirinha? É que não há pachorra para aturar tantos Schumachers de meia-tigela!
Não se pense, no entanto, que a utilização abusiva da buzina é uma prática exclusiva só de alguns. O hábito de buzinar “por dá cá aquela palha” está tão enraizada na cultura portuguesa como o bacalhau. Há pessoas para quem a buzina deve ser mesmo a peça mais importante do seu automóvel, de tal forma que conseguem andar nas ruas perfeitamente à vontade com os pneus carecas, os travões gastos ou os faróis fundidos, mas vão imediatamente ao mecânico se a buzina deixar de funcionar. Ora, aqui eu faço um parêntesis para colocar a seguinte questão: haverá, por detrás deste comportamento social, uma explicação de índole sexual? Será que os homens vêem a buzina como uma extensão do seu próprio pénis e, a exemplo do que acontece com aqueles tarados que andam pela Estação da Trindade vestidos apenas com uma gabardina, gostam de andar pelas ruas a exibir a potência da sua gaita? E as mulheres que andam pelas ruas a dar apitadelas, encontrarão na buzina do seu automóvel um escape para aquilo que Freud designaria como “a inveja do pénis”, qualquer coisa do tipo “já que não tenho pila, fodo a cabeça do pessoal com a gaita do meu carro”?  
Diz o Código da Estrada que a buzina deve ser utilizada apenas para chamar a atenção dos outros condutores ou peões sobre a aproximação do veículo em situações em que exista o risco de acidente, sendo expressamente proibida a sua utilização durante a noite e nas proximidades dos hospitais (Usar a buzina para protestar está portanto completamente fora de questão, ou melhor, estaria, se se tratasse de uma sociedade civilizada, obviamente). Ora, para uma grande parte dos portugueses, o Código da Estrada não passa de uma obra filosófica escrita há muitos séculos atrás por Sócrates (o filósofo, não o pseudo-engenheiro) ou Platão e que as pessoas são obrigadas a decorar na véspera do exame para logo esquecerem mal obtenham a respectiva aprovação. Vai daí, é ver o pessoal a apitar pelas ruas a qualquer hora do dia ou da noite e que se fodam os dorminhocos e os doentes. Curiosamente, na maior parte das vezes os apitadores (ou gaiteiros, se preferirem) buzinam de forma veemente e prolongada para protestar contra uma manobra ilegal realizada por outro condutor. Não deixa de ser curioso que eles próprios cometam conscientemente uma ilegalidade para protestar contra outra ilegalidade que até pode ter sido feita de forma inconsciente. Nem sei o que seria deste país se não existisse esta gente com um espírito cívico tão atento e sempre pronta para protestar ruidosamente contra o que de mal acontece à sua volta. Mereciam receber uma medalha no 10 de Junho e, de preferência, que lha espetassem na gaita.
 
P.S. - Porque será que os fabricantes de automóveis, sempre ávidos de inovações tecnológicas, ainda não se lembraram de inventar um carro com uma buzina melodiosa em vez das ultrapassadas gaitas? Porque não substituir o irritante PIIIIIIIII! ou o PÓ-PÓÓÓ! das horas de ponta por uma sinfonia de Beethoven ou, se preferírem algo menos complexo, um simples toque  polifónico agradável ao ouvido? Vou ter de ser eu a escrever-lhes uma carta?  
publicado por Rui Moreira às 00:59 link do post | comentar | favorito