Cheguei ao Inferno, não gostei e vim embora

Acabei de ler um livro cujo enredo já conhecia do cinema mas que não deixou, ainda assim, de constituir uma boa leitura: O nome da Rosa, de Humberto Eco. Quem lê esta história, passada em plena idade média, apercebe-se de como a Humanidade vivia aterrada com questões sobrenaturais, às quais atribuía a origem de tudo o que de mal acontecia. Bons tempos aqueles, digo eu, em que as pessoas andavam na linha com medo de cair no poço dos infernos ao mais pequeno pecado e em que havia um bode expiatório sempre disponível para acartar com as culpas das tragédias: o Diabo!
Hoje em dia, a Humanidade perdeu o respeito pelas coisas infernais e fez muito mal. Substituiu-se o Diabo, Belzebú, Demo, ou como lhe quiserem chamar, por processos jurídicos morosos e dispendiosos, cujo resultado final, em regra, não interessa nem agrada a ninguém. Por exemplo, caiu uma ponte morrendo dezenas de pessoas e logo se procurou encontrar culpados e responsáveis, num processo que se arrastou penosamente durante meses, apenas para chegarem à brilhante conclusão de que, afinal, a culpa não foi de ninguém em concreto. Ora, não teria sido mais simples dizer logo que a culpa foi do Demo? Sempre se poupava dinheiro dos contribuintes e as famílias das vítimas não tinham agora de ver a sua revolta aumentada por verem a culpa morrer solteira. Era tudo tão simples e barato, não sei porque resolveram complicar...
Outro aspecto curioso é a ideia inocente que as pessoas têm, presentemente, do Inferno. Dantes, os pais diziam aos putos –“Se te portas mal, vais para o Inferno!”, e os putos ficavam de olhos arregalados e o cu apertadinho porque sabiam que isso era uma coisa má, mesmo muito má! Hoje, muitas vezes ouvimos os adeptos do Benfica dizerem –“Vou levar o meu filho ao  Inferno da Luz!” e lá vão eles, todos felizes, e até pagam para lá ir. Se descontarmos o sofrimento dos próprios benfiquistas ao verem a forma como o SLB passou a jogar desde que lá chegou o anjinho do Fernando Santos, a verdade é que os adeptos conceberam uma ideia comodista de um Inferno em que eles próprios assumem o papel dos diabos, comodamente sentados nas cadeiras a beber uma coca-cola fresquinha enquanto que as pobres almas do árbitro e dos jogadores são insultadas e atormentadas das piores formas que se possa imaginar. Assim e fácil conceber Infernos! Curiosamente, depois queixaram-se quando chegou lá a claque do FCP e, esses sim, transformaram aquilo num verdadeiro Inferno, com petardos a rebentar, cheiro a enxofre no ar, gente ferida e a sangrar, dor, angústia, sofrimento, gritos. E pronto, lá comecaram os processos para apuramento de responsabilidades, cada um a atirar com as culpas para os outros, e já toda a gente sabe como isto vai acabar. Mas afinal o que queriam? Aquilo é ou não é um Inferno? Decidam-se, por favor! Se não sabem o que querem, não brinquem com coisas sérias!
Já repararam bem no aspecto abichanado dos Diabos actuais? Alguém teria respeito ou medo de um gajo todo nu, pintado de vermelho, com um par de cornos na testa e um rabo que mais parece um bocado de mangueira enfiada no cu? Tenham dó! Onde está o verdadeiro Belzebú, criatura horrenda com vinte metros de altura, olhos flamejantes e hálito a enxofre, que incendeia tudo à sua volta com as chamas da sua forquilha, queimando e atormentando as almas pecadoras? Reformou-se? Está de férias nas Caraibas? É preciso ir lá chamá-lo e rápido, que este país, sem a sua gestão competente, está a virar um Inferno!
publicado por Rui Moreira às 02:31 link do post | comentar | favorito