Não à penalização do piropo!

 

Um destes dias cheguei ao trabalho e, mal entrei no gabinete, tive a sensação de que havia alguma coisa errada. O ambiente estava estranho, as pessoas estavam cabisbaixas e pensativas, o que não era habitual mesmo àquela hora da manhã. Cumprimentei os meus colegas e ouvi-os sussurrar com ar grave e sério:
 
-“Dá-lhe tu a notícia, tens mais jeito para essas coisas.”
–“Eu??? Não, é melhor seres tu a dizer-lhe.”
 
Não haviam dúvidas, alguma coisa grave acontecera. Talvez tivesse falecido alguém, ou estivessemos todos em risco de ir parar ao desemprego... Enfim, preparei-me para o pior.
 
-“Temos uma má notícia para te dar. Estás preparado?”
Inspirei fundo e respondi: -“Dispara!”
-“Então cá vai: a partir de hoje, o piropo passa a ser punível com cadeia!”
-“Tens a certeza disso? Estás a brincar!”- disse eu.
-“Não, é verdade. Ouvimos no noticiário da rádio, agora de manhã.”
 
Mal podia acreditar no que ouvia! Agora percebo porque motivo é que os assaltantes são postos em liberdade, é para ganhar espaço nas cadeias para lá meter os piropadores, esses criminosos!
Eu nunca fui um grande piropador, tenho de reconhecê-lo. Não é que me faltem ideias ou imaginação para os inventar, mas a minha timidez nata retira-me sempre o discernimento e a espontaneidade necessária para a aplicação do piropo no momento certo. Sim, porque não duvidem de que existe toda uma ciência por detrás de um bom piropo. Um segundo antes ou depois, uma hesitação no momento de o atirar e é o desastre, o descalabro, o fracasso total! No entanto, lá fui dando os meus piropos pela vida fora, com mais ou menos sucesso, e a ideia de que tal prática, que até aqui sempre considerei saudável, passar a constituir crime punível com cadeia, aterrorizou-me. E se eu for normalmente pela rua e, ao ver passar uma mulher daquelas de fazer para o trânsito, cair na tentação de mandar um piropo sem pensar? De um momento para o outro terei a minha vida desgraçada e ver-me-ei perante um juiz a tentar explicar que aquilo não passou de um acto reflexo, um gesto irreflectido sem importância, que o objectivo era apenas elogiar, enaltecer os traços físicos da pessoa. E se, nessa altura, eu tiver namorada, o que irá ela fazer ao descobrir que o seu namorado foi preso por andar a mandar piropos às outras mulheres? E a minha mãe, coitada, como irá resistir ao choque de saber que o seu filho é um criminoso que anda pelas ruas a piropar pessoas inocentes? E os meus amigos, será que me irão visitar à cadeia (pensando bem, conhecendo-os como conheço, o mais provável é serem meus companheiros de cela...)?
Palavra de honra que não entendo o que está por trás desta lei injusta. O piropo é uma arte, é cultura, é um património nacional que deve ser protegido, não proibido! O piropo devia ter sido candidato a uma das 7 maravilhas de Portugal e só não o foi porque existe claramente um lobby com o objectivo de destruir a sua imagem perante a opinião pública. Que beleza tem o Mosteiro da Batalha ou o Palácio da Pena quando comparados com um bom piropo lançado do alto de um andaime, do tipo “És boa como o milho, anda cá que eu faço de ti pipoca!” ou “A tua mãe deve ser uma ostra para fazer pérolas como tu!”?
Não se pense que o piropo está ao alcance de qualquer pessoa. Criar um bom piropo é um acto de criação artística que exige muitas horas de estudo e dedicação, mas nada disso seria suficiente sem talento. Ora, tal como existe boa música e má música, bons quadros e maus quadros, boas esculturas e más esculturas, é legítimo que existam também bons piropos e maus piropos, mas será isso, por si só, motivo suficiente para mandar um gajo para a cadeia? Nesse caso, porque não mandam prender os cantores “pimba” pelo verdadeiro atentado à moral e aos bons costumes que cometem de cada vez que aparecem na TV com as suas canções de qualidade duvidosa , os seus penteados ridículos e as suas indumentárias patéticas? Há aqui muita hipocrisia no meio disto tudo, senão repare-se: se for um trolha a mandar um piropo do género “Se fosses cavalinho de carrossel, montava-te o dia todo!”, as mulheres ficam muito ofendidas, mas se aparecer o Emanuel a cantar “E se elas querem um abraço ou um beijinho, nós PIMBA!”, é vê-las aos saltos, todas contentes. Ora, por favor! O que acham que ele quer realmente dizer com aquele “PIMBA”? Abraços e beijinhos? Santa inocência...
A proibição do piropo poderá originar graves complicações jurídicas se a questão não for devidamente legislada e refira-se que tal tarefa não será fácil. É ponto assente que um piropo, para ser piropo, tem sempre um cariz sexual, sendo muitas vezes utilizado como forma de aproximação entre duas pessoas que se conhecem ou pretendem conhecer. Mas até que ponto se poderá considerar ofensivo? Como se poderá definir a fronteira entre o comentário elogioso e a ofensa sexista, axincalhante e rebaixante? E como distinguir a má-fé do simples mau gosto? Se um homem se dirigir a uma mulher e disser “Estás lindíssima!”, isso pode ser, obviamente, interpretado como um piropo, mas não me parece que ninguém se ofenda com tal comentário, bem pelo contrário. No entanto, se disser “Abençoados pais que tiveram uma filha assim!” ou “Chamem cá o Papa, que anda aqui um anjo à solta!”, tal pode ser interpretado pela mulher como uma forma grosseira de enaltecer a sua beleza, ainda que a intenção seja igualmente elogiosa sob o ponto de vista do emissor. Outra questão pertinente é a subjectividade da interpretação do piropo inerente à orientação sexual de cada pessoa. Eu, por exemplo, gosto que uma mulher me diga “És um pedaço de mau caminho!”, mas, se um gay me disser o mesmo, sou bem capaz de reagir pessimamente, do tipo “Como é que este larilas pode ter pensado que me agradaria com um comentário destes se eu tenho, indubitávelmente, jeito de macho latino???”. Quer isto dizer que a intepretação do piropo enquanto comentário elogioso ou ofensivo está excessivamente dependente da personalidade, da susceptibilidade e, porque não dizer, dos traumas, da pessoa “alvo”. Estará a Justiça portuguesa preparada para tomar decisões sobre este assunto, pondo em causa a liberdade de uma pessoa com base em critérios tão subjectivos, quando dá mostras de não conseguir decidir sequer sobre um homicídio em que o assassino é apanhado em flagrante a alvejar a vítima com dez tiros de caçadeira perante uma multidão de centenas de pessoas e filmado pelas câmaras de segurança?
Alguém está a tentar abafar a genuína cultura portuguesa amordaçando os piropadores e, se não levantarmos a nossa voz agora, em protesto contra esta loucura, amanhã estarão a amordaçar também os fadistas e os adeptos do futebol que vão aos estádios para insultar os árbitros! Não podemos permitir que isso aconteça! Temos de nos unir e expressar bem alto a nossa indignação! NÃO À PENALIZAÇÃO DO PIROPO!
publicado por Rui Moreira às 23:41 link do post | comentar | favorito