Já não há cavalheirismo

É muito comum, hoje em dia, ouvirmos as mulheres dizerem que já não há cavalheirismo e não há dúvida de que, sob um certo ponto de vista, essa é, de facto, a mais pura das verdades. Nos nossos dias, o cavalheiro sente-se como o último dos Moicanos na sua derradeira batalha, um condenado com os pés para a cova que teima em espernear e dar o seu último grito de agonia antes de cair definitivamente na tumba do esquecimento. O problema é que os tempos são de mudança e o cidadão moderno acaba por encontrar-se muitas vezes num dilema moral: por um lado, ele quer evoluir, adaptar-se aos tempos modernos e esquecer determinados comportamentos que fizeram todo o sentido no tempo dos nossos avós mas que, actualmente, se tornaram obsoletos e até mesmo ridículos em determinadas situações; por outro lado, ele ainda sente o dever de honrar os seus pais e avós e teme que a educação herdada dos seus progenitores possa ser posta em causa pelo facto de não agir de uma certa forma em determinados momentos. O resultado deste dilema é, por vezes, desastroso! Nunca sabemos ao certo como é que a pessoa com quem estamos a lidar encara esta questão e, na dúvida, optamos muitas vezes por assumir uma postura mista, ou seja, fingimos que estamos preocupados com as regras do cavalheirismo mas sem que nos sintamos suficiantemente à vontade para o demonstrar abertamente com medo de cairmos no ridículo, o que acaba por resultar numa actuação insegura e nervosa que pode arruinar uma entrevista de emprego, um contrato comercial ou um encontro amoroso. Um bom exemplo disto é aquele péssimo hábito que muitas pessoas têm de levantar ligeiramente o cú da cadeira onde estão sentados quando cumprimentam uma senhora com um aperto de mão. Por amor de Deus, meus amigos, acabemos de uma vez por todas com essas tristes figuras! Se querem demonstrar respeito pela pessoa que estão a cumprimentar então levantem-se sem rodeios e assumam uma postura correcta e confiante. Em alternativa, fiquem definitivamente sentados, pois tudo é preferível do que fazer esse gesto aparvalhado de levantar o cú com um pequeno impulso que mais parece que estão a mandar um peido.
Há pouco mais de três décadas atrás, era costume os homens usarem chapéu e mandavam as regras do cavalheirismo que, na presença de uma senhora, o retirassem da cabeça. Presentemente, não existe o costume de usar chapéu no dia a dia, mas é vulgar os jovens usarem bonés, mais por questões de moda do que propriamente como medida contra a insolação. Ora, aqui eu pergunto: como se explica a um jovem, para quem um boné não passa de um mero adereço de moda tal como umas sapatilhas “fixes” ou um cinto “baril”, que deve retirar o boné da cabeça por uma questão de cavalheirismo quando se encontra na presença de uma senhora? Se atendermos que agora é moda os jovens andarem com a roupa interior de marca à vista, mandá-los tirar o chapéu não terá, na sua perspectiva, o mesmo significado que mandá-los tirar as cuecas?
Outro costume em completo desuso é abrir a porta do automóvel enquanto a senhora entra ou sai do veículo. Esse gesto fazia sentido quando as senhoras usavam vestidos compridos, uma vez que, para elas, tornava-se complicado puxar e segurar todo aquele pano enquanto fechavam a porta do carro. Ora, nos dias de hoje, em que as mulheres usam calças e as saias são, em certos casos, praticamente reduzidas à largura do cinto, acham que alguém precisa de ajuda para abrir ou fechar a porta de um carro? Bem vistas as coisas, neste caso o tiro pode bem sair pela culatra ao cavalheiro independentemente da honestidade das suas intenções, isto porque a mulher pode bem interpretar esse gesto apenas como um pretexto para lhe apreciar as pernas enquanto ela se senta, o que, diga-se de passagem, em muitos casos até corresponde à verdade.
As mulheres, que tantas vezes se queixam da falta de cavalheirismo dos homens, acabaram por ser também uma das causas do desaparecimento desse mesmo cavalheirismo graças à sua luta pela igualdade de direitos. Na verdade, é impossível ser cavalheiro quando se convida uma senhora para um jantar à luz das velas num belo restaurante à beira-rio e ela insiste em dividir a despesa “a meias” na hora de pagar a conta. A carteira agradece essa amabilidade até porque, nos dias que correm, as mulheres conseguem ter, em muitos casos, maior disponibilidade financeira que grande parte dos homens, mas convenhamos que, com tal atitude, muito do espírito romântico e cavalheiresco vai por água abaixo.
Muitos outros exemplos deste género poderiam ser aqui referidos e que nos levariam a reflectir se de facto o cavalheirismo não deveria desaparecer completamente da face da Terra. No entanto, temos sempre de ter em consideração que tudo na vida evolui e o cavalheirismo também pode evoluir. Na prática, o cavalheiro não tem necessariamente de desaparecer mas sim adaptar-se aos tempos modernos, aos novos hábitos, às novas filosofias e estilos de vida. A questão que se põe é esta: seremos nós capazes de entender como cavalheirismo determinados actos que aos nossos olhos nos podem parecer banais, tal como eram para os nossos avós o simples acto de tirar o chapéu e abrir a porta do carro? Por exemplo, não deveríamos entender como um acto de cavalheirismo moderno quando um homem cede o comando da televisão para que seja ela a escolher o canal que quer ver mesmo quando está dar aquele jogo de futebol decisivo para o campeonato? Ou quando o homem lhe empresta o seu telemóvel depois dela ter estourado o saldo dela num telefonema para uma amiga com quem não falava há mais de... duas horas? Ou ainda quando ele se dá como culpado perante a companhia de seguros depois dela ter riscado a pintura do carro ao sair da garagem? Talvez daqui a uns anos, com a evolução dos tempos, as nossas próprias netas sejam capazes de nos fazer justiça dizendo “Os nossos avós é que eram cavalheiros! Agora, já não há cavalheirismo!”
publicado por Rui Moreira às 22:54 link do post | comentar | favorito