As frondosas vegetações do Estado Novo

Não queria deixar passar as comemorações do 25 de Abril sem escrever algo alusivo a esta data, ainda que tenha de reconhecer que possuo poucos conhecimentos sobre o tema e muito menos experiências que possam ser relatadas na 1ª pessoa. Apesar de ter nascido em 1970 e, como tal, pertencer a uma geração pré-25 de Abril, a verdade é que tinha apenas quatro anos quando se deu a Revolução dos Cravos em Portugal, pelo que, quando me fazem a célebre pergunta -“Onde estavas no 25 de Abril?”, eu simplesmente respondo –“Não me lembro, mas devia estar a cagar no penico”.
A consciência que possuo de toda a envolvência política e social que rodearam este importante acontecimento da nossa História foi construída com base na informação escrita e falada que me chegou ao longo dos anos. Neste sentido, lembrei-me que viria a propósito analisar aqui uma regulamentação aprovada em 1953 pela Câmara Municipal de Lisboa (vivia-se então em plena ditadura do Estado Novo, recorde-se) que especificava os crimes e as respectivas multas a aplicar pelos polícias e guardas-florestais a todas as pessoas que procuravam “frondosas vegetações para a prática de actos que atentem contra a moral e os bons costumes”. Dito assim parece coisa grave, mas afinal, que crimes hediondos seriam esses que mereceram, da parte da CML, tão zelosa atenção? Pois, segundo o mesmo documento, a lista de crimes era a seguinte:
 
1º - Mão na mão (2$50).
2º - Mão naquilo (15$00).
3º - Aquilo na mão (30$00).
4º - Aquilo naquilo (50$00).
5º - Aquilo atrás daquilo (100$00).
6º - Com a língua naquilo (150$00 de multa, preso e fotografado). 
 
Antes de mais devo dizer que considero perfeitamente extraordinária a forma como procuraram transmitir a mensagem sem que, em momento absolutamente nenhum, fossem referidos directamente os objectos em causa e que tanto repúdio causavam. Evitando cair em banalidades do tipo "pilinhas", “pipis” e tutus”, optaram pela substituição dos ditos objectos por “aquilo”, “naquilo” e “atrás daquilo”, o que, há que reconhecer, é, pura e simplesmente, brilhante!
De resto, ficamos a saber que um casal de namorados que cometesse o crime horrendo de andar de mãos dadas na rua, atentando frontalmente contra a moral e os bons costumes, incorria numa multa de 2$50, quantia essa que, contas feitas de cabeça, corresponderia, à taxa actual, a cerca de um euro e meio. É obra!
Já a questão da “mão naquilo” e “aquilo na mão” está mal definida e era capaz de gerar alguma controvérsia. Na verdade, se um polícia apanhasse um casal em flagrante, como poderia ele decidir se teria sido a mão a ser posta “naquilo” ou se teria sido “aquilo” a ser posto na mão? A dúvida é pertinente e exigia uma maior clarificação pois, apesar de em termos práticos a coisa ser exactamente a mesma (pelo menos na minha perspectiva), o valor da multa sobe de 15$00, no primeiro caso, para 30$00, no segundo. Há aqui qualquer coisa que me está a escapar. Talvez a “mão naquilo” se refira a uma situação em que uma pessoa ande com “aquilo” de outra pessoa na mão, enquanto que o “aquilo na mão” se verifique quando a pessoa anda com o seu próprio “aquilo” na sua mão. Mas, sendo assim, não se compreende porque motivo é que considerariam mais grave (o dobro da gravidade, para ser preciso) andar com o nosso próprio “aquilo” na mão do que com os “aquilos” alheios. Não faz muito sentido, mas quem sou eu para tentar compreender estes importantes assuntos de Estado?
Apesar de tudo, a questão mais polémica é que ser apanhado “com a língua naquilo” era considerado um crime muito mais grave do que ter “aquilo atrás daquilo”, a ponto de ser punido com uma pesada multa, ser preso e (pasme-se!) ser fotografado! Pá, lá que multem e prendam ainda vá, mas fotografar é desumano! Sinceramente, não acho isso nada bem, principalmente porque o documento não especificava se as multas deviam ser aplicadas da mesma forma se os prevaricadores fossem de sexos diferentes ou do mesmo sexo. Veja-se, por exemplo, o que aconteceu ao cantor George Michael quando foi apanhado em flagrante nuns sanitários públicos com “aquilo” do namorado no “atrás daquilo” dele e que, por causa disso, se viu envolvido num escândalo a nível mundial. Se tal situação se tivesse passado em Lisboa no ano de 1953, teria pago uma simples multa de 100$00 e pronto, iria à sua vida, sem uma única fotografiazinha, não seria notícia nas revistas cor de rosa, enfim, nada (nada, excepto um andar novo, claro está)! Já o Hugh Grant, apanhado no banco de trás do seu automóvel com uma prostituta que mantinha a “lingua naquilo” dele, seria preso e fotografado! Palavra de honra, não há macho nenhum que possa entender uma injustiça destas! Agora entendo porque os militares fizeram a revolução de Abril! Pudera! Perante uma ditadura com tiques abichanados como esta, até eu me revoltaria! E o Salazar que fosse apanhar no... “atrás daquilo”!
publicado por Rui Moreira às 00:15 link do post | comentar | favorito