O espirro

Vou aqui dissertar um pouco sobre o espirro. Sim, isso mesmo, o espirro, perceberam bem. O espirro é algo tão natural e comum nas nossas vidas que nem pensamos na importância que ele assume para a nossa saúde e, em muitas situações, na influência que tem sobre o nosso comportamento social. Ao longo da História, já muita gente escreveu artigos, piadas e teses mais ou menos sérias sobre o peido e o arroto, mas não foram muitos os que se debruçaram sobre as questões do espirro. Na verdade, todas as pessoas gostam de dar o seu peidinho ou arrotinho pela sensação de alívio que proporcionam, mas o mesmo não acontece com o espirro sobre o qual recai um certo negativismo. O espirro é, por assim dizer, o parente pobre das manifestações corporais, e como eu não gosto de injustiças e sou pela defesa dos mais fracos e desprotegidos, aqui estou, de alma e coração, a fazer-lhe justiça.  
Será que existem verdadeiros motivos para detestar o espirro? Segundo os peritos, o espirro (ou esternutação, como lhe quiserem chamar) é um mecanismo de defesa do organismo que permite eliminar bactérias, vírus ou substâncias alojadas nas vias respiratórias através da expulsão compulsiva do ar do nariz e da boca. Nesta perspectiva, deveríamos ficar muito felizes pelo facto da Mãe Natureza nos ter proporcionado uma arma defensiva tão poderosa como esta, capaz de arremessar os nossos males a longas distâncias. Há, no entanto, o reverso da medalha. Se considerarmos que o espirro sai a uma velocidade que pode atingir uns espantosos 250 quilómetros por hora, é fácil perceber que esta eficiente defesa de quem espirra transforma-se rapidamente numa violenta agressão para quem se encontra à sua volta. Vai um tipo sossegado a ler o jornal no transporte público e, de repente, é torpedeado pelo indivíduo do banco de trás com inúmeras bactérias projectadas pelo ar a uma velocidade de 250km/h. Vistas as coisas por este prisma, a única forma de ficarmos em vantagem nesta guerra é espirrando mais forte e mais rápido do que toda a gente à nossa volta, o que nem sempre é fácil. Transforma-se assim uma pacata viagem de autocarro numa espécie de tiroteio ao estilo "Western", com chumbo quente a voar em todas as direcções, no final do qual ficará vivo o que tiver o dedo mais rápido no gatilho. Pensando bem, não há dúvida de que a melhor vacina contra a gripe é mesmo deixar de andar de autocarro.
Há situações em que espirrar pode ser bastante inconveniente. O espirro surge, muitas vezes, de forma totalmente inesperada e em alturas em que não dá jeito absolutamente nenhum, o que pode ter consequências gravíssimas. Por exemplo, imaginemos que estamos a beijar a nossa namorada (ou namorado, conforme o sexo... ou melhor... a preferência sexual do leitor... esqueçam!) e, de repente, damos um espirro. O melhor é começar a pensar em partir para outra porque, esse namoro, já era! Muito comum também é o embaraço causado por um número ilimitado de espirros sucessivos, perfeitamente cadenciados, dados no cinema, num concerto ou no meio de um casamento. Está o padre a perguntar ao noivo se aceita a noiva como legítima esposa e ouve-se aquele irritante som de alguém lá atrás a espirrar incessantemente. Fica o padre, os noivos e os restantes convidados com aquele sorriso amarelo, como quem diz -“Eu mandava-te espirrar lá para fora, mas estamos na casa de Deus e parece mal!”. Uma coisa é certa: seja lá onde for que nos apeteça espirrar, espirremos! A tentativa de evitar que o espirro saia tapando o nariz é perigosa pois pode provocar a ruptura dos tímpanos devido à pressão do ar no interior do canal auditivo. Evitem fazer figuras do tipo –“Ah, fiquei surdo para o resto da vida, mas não interrompi o padre!”
Uma particularidade bastante curiosa do espirro é o facto de não conseguirmos espirrar com os olhos abertos. Há quem diga que isso é uma forma do corpo impedir que os olhos saltem das órbitas quando espirramos, mas isso é ridículo. Trata-se apenas de uma reacção nervosa dos olhos provocada pelo estímulo da passagem do ar no nariz. Só faltava mesmo que os olhos saltassem das órbitas quando espirramos, já viram a triste figura que faríamos numa festa –“Olhe, desculpe, acho que os meus olhos cairam literalmente no seu decote!” ou na discoteca –“Cuidado, por favor, não me pise no olho!”   
Em vários países do Mundo, o espirro é uma coisa boa. Na Índia, por exemplo, espirrar significa que alguém amado está a pensar em ti (não quero nem imaginar o que os indianos pensam sobre o peido!). Aquilo que as pessoas dizem quando alguém espirra também varia conforme o espírito com que cada povo encara o espirro. Em Porto Rico, quando uma pessoa espirra repetidamente diz-se primeiro “Salud”, depois “Dinero” e depois “Amor” (ao quarto espirro acho que já não dizem nada. Eu cá diria “Follar”, por exemplo). Ora, em Portugal, o mau hábito de dizer “santinho” quando alguém espirra não contribui absolutamente nada para mudar o negativismo que existe em torno do espirro. Esse ridículo costume pode ter tido origem durante as epidemias de peste que assolaram o nosso país por diversas vezes ao longo da sua História. Quando alguém espirrava, isso significava que poderia estar já infectado pelo vírus da doença, pelo que as pessoas gritavam “SANTINHO!” para apelar aos santos que tivessem piedade do doente (já praticamente condenado à partida), ou que as protegessem a elas próprias de serem também infectadas. Talvez pelos mesmos motivos, em Inglaterra as pessoas diziam “God bless you!”, ou seja, “Deus te abençoe!”, o que na prática significava “Já tás fodido!”
publicado por Rui Moreira às 20:02 link do post | comentar | favorito