Terça-feira, 26.05.09

O fetiche da gaita

 

Se procurarmos a definição de nanossegundo num dicionário, encontraremos qualquer coisa como isto:
 
“Nanossegundo: medida de tempo equivalente a 10-9 segundos e cuja abreviatura é ns.”
 
Em qualquer livro de Física, poderemos encontrar ainda outras definições científicas, tais como esta:
 
“Nanossegundo: período de tempo durante o qual a luz percorre 29,9792458 cm no vácuo.”
 
Interessante, sem dúvida. No entanto, a definição de nanossegundo mais curiosa que eu alguma vez li foi a seguinte:
 
“Nanossegundo: lapso de tempo que decorre desde que o semáforo fica verde e o carro de trás começa a apitar.”
 
Presumo que esta afirmação não se baseia em nenhum estudo científico nem que tenha sido escrita até hoje alguma tese de mestrado sobre o assunto, mas a verdade é que qualquer cidadão habituado a circular com o seu automóvel nas ruas das nossas cidades concerteza não terá grande dificuldade em aceitá-la como verdadeira, ou, no mínimo, em dar-lhe o benefício da dúvida. De facto, já todos experimentamos aquela irritante sensação de estarmos parados num semáforo, exactamente no primeiro lugar da fila, e levarmos uma buzinadela do imbecil do carro de trás imeditamente a seguir à passagem da luz de vermelho para verde. Há indivíduos que acham que devem ter passado ao lado de uma grande carreira de pilotos de Fórmula 1 e que, quando se encontram na fila do semáforo, se imaginam na grelha de partida do Grande Prémio do Mónaco, ao volante de um Ferrari. Já que não podem sair disparados ao sinal verde, desatam a buzinar, que é a sua forma de dizer “Se isto fosse uma corrida a sério, eu já ia na primeira curva e vocês ainda estavam a arrancar, suas lesmas!” Foda-se, não há ninguém que lhes dê um banho de champanhe gelado (espumante rasca também serve) pela cabeça abaixo que é para ver se estes gajos esfriam a moleirinha? É que não há pachorra para aturar tantos Schumachers de meia-tigela!
Não se pense, no entanto, que a utilização abusiva da buzina é uma prática exclusiva só de alguns. O hábito de buzinar “por dá cá aquela palha” está tão enraizada na cultura portuguesa como o bacalhau. Há pessoas para quem a buzina deve ser mesmo a peça mais importante do seu automóvel, de tal forma que conseguem andar nas ruas perfeitamente à vontade com os pneus carecas, os travões gastos ou os faróis fundidos, mas vão imediatamente ao mecânico se a buzina deixar de funcionar. Ora, aqui eu faço um parêntesis para colocar a seguinte questão: haverá, por detrás deste comportamento social, uma explicação de índole sexual? Será que os homens vêem a buzina como uma extensão do seu próprio pénis e, a exemplo do que acontece com aqueles tarados que andam pela Estação da Trindade vestidos apenas com uma gabardina, gostam de andar pelas ruas a exibir a potência da sua gaita? E as mulheres que andam pelas ruas a dar apitadelas, encontrarão na buzina do seu automóvel um escape para aquilo que Freud designaria como “a inveja do pénis”, qualquer coisa do tipo “já que não tenho pila, fodo a cabeça do pessoal com a gaita do meu carro”?  
Diz o Código da Estrada que a buzina deve ser utilizada apenas para chamar a atenção dos outros condutores ou peões sobre a aproximação do veículo em situações em que exista o risco de acidente, sendo expressamente proibida a sua utilização durante a noite e nas proximidades dos hospitais (Usar a buzina para protestar está portanto completamente fora de questão, ou melhor, estaria, se se tratasse de uma sociedade civilizada, obviamente). Ora, para uma grande parte dos portugueses, o Código da Estrada não passa de uma obra filosófica escrita há muitos séculos atrás por Sócrates (o filósofo, não o pseudo-engenheiro) ou Platão e que as pessoas são obrigadas a decorar na véspera do exame para logo esquecerem mal obtenham a respectiva aprovação. Vai daí, é ver o pessoal a apitar pelas ruas a qualquer hora do dia ou da noite e que se fodam os dorminhocos e os doentes. Curiosamente, na maior parte das vezes os apitadores (ou gaiteiros, se preferirem) buzinam de forma veemente e prolongada para protestar contra uma manobra ilegal realizada por outro condutor. Não deixa de ser curioso que eles próprios cometam conscientemente uma ilegalidade para protestar contra outra ilegalidade que até pode ter sido feita de forma inconsciente. Nem sei o que seria deste país se não existisse esta gente com um espírito cívico tão atento e sempre pronta para protestar ruidosamente contra o que de mal acontece à sua volta. Mereciam receber uma medalha no 10 de Junho e, de preferência, que lha espetassem na gaita.
 
P.S. - Porque será que os fabricantes de automóveis, sempre ávidos de inovações tecnológicas, ainda não se lembraram de inventar um carro com uma buzina melodiosa em vez das ultrapassadas gaitas? Porque não substituir o irritante PIIIIIIIII! ou o PÓ-PÓÓÓ! das horas de ponta por uma sinfonia de Beethoven ou, se preferírem algo menos complexo, um simples toque  polifónico agradável ao ouvido? Vou ter de ser eu a escrever-lhes uma carta?  
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Segunda-feira, 25.05.09

Não à penalização do piropo!

 

Um destes dias cheguei ao trabalho e, mal entrei no gabinete, tive a sensação de que havia alguma coisa errada. O ambiente estava estranho, as pessoas estavam cabisbaixas e pensativas, o que não era habitual mesmo àquela hora da manhã. Cumprimentei os meus colegas e ouvi-os sussurrar com ar grave e sério:
 
-“Dá-lhe tu a notícia, tens mais jeito para essas coisas.”
–“Eu??? Não, é melhor seres tu a dizer-lhe.”
 
Não haviam dúvidas, alguma coisa grave acontecera. Talvez tivesse falecido alguém, ou estivessemos todos em risco de ir parar ao desemprego... Enfim, preparei-me para o pior.
 
-“Temos uma má notícia para te dar. Estás preparado?”
Inspirei fundo e respondi: -“Dispara!”
-“Então cá vai: a partir de hoje, o piropo passa a ser punível com cadeia!”
-“Tens a certeza disso? Estás a brincar!”- disse eu.
-“Não, é verdade. Ouvimos no noticiário da rádio, agora de manhã.”
 
Mal podia acreditar no que ouvia! Agora percebo porque motivo é que os assaltantes são postos em liberdade, é para ganhar espaço nas cadeias para lá meter os piropadores, esses criminosos!
Eu nunca fui um grande piropador, tenho de reconhecê-lo. Não é que me faltem ideias ou imaginação para os inventar, mas a minha timidez nata retira-me sempre o discernimento e a espontaneidade necessária para a aplicação do piropo no momento certo. Sim, porque não duvidem de que existe toda uma ciência por detrás de um bom piropo. Um segundo antes ou depois, uma hesitação no momento de o atirar e é o desastre, o descalabro, o fracasso total! No entanto, lá fui dando os meus piropos pela vida fora, com mais ou menos sucesso, e a ideia de que tal prática, que até aqui sempre considerei saudável, passar a constituir crime punível com cadeia, aterrorizou-me. E se eu for normalmente pela rua e, ao ver passar uma mulher daquelas de fazer para o trânsito, cair na tentação de mandar um piropo sem pensar? De um momento para o outro terei a minha vida desgraçada e ver-me-ei perante um juiz a tentar explicar que aquilo não passou de um acto reflexo, um gesto irreflectido sem importância, que o objectivo era apenas elogiar, enaltecer os traços físicos da pessoa. E se, nessa altura, eu tiver namorada, o que irá ela fazer ao descobrir que o seu namorado foi preso por andar a mandar piropos às outras mulheres? E a minha mãe, coitada, como irá resistir ao choque de saber que o seu filho é um criminoso que anda pelas ruas a piropar pessoas inocentes? E os meus amigos, será que me irão visitar à cadeia (pensando bem, conhecendo-os como conheço, o mais provável é serem meus companheiros de cela...)?
Palavra de honra que não entendo o que está por trás desta lei injusta. O piropo é uma arte, é cultura, é um património nacional que deve ser protegido, não proibido! O piropo devia ter sido candidato a uma das 7 maravilhas de Portugal e só não o foi porque existe claramente um lobby com o objectivo de destruir a sua imagem perante a opinião pública. Que beleza tem o Mosteiro da Batalha ou o Palácio da Pena quando comparados com um bom piropo lançado do alto de um andaime, do tipo “És boa como o milho, anda cá que eu faço de ti pipoca!” ou “A tua mãe deve ser uma ostra para fazer pérolas como tu!”?
Não se pense que o piropo está ao alcance de qualquer pessoa. Criar um bom piropo é um acto de criação artística que exige muitas horas de estudo e dedicação, mas nada disso seria suficiente sem talento. Ora, tal como existe boa música e má música, bons quadros e maus quadros, boas esculturas e más esculturas, é legítimo que existam também bons piropos e maus piropos, mas será isso, por si só, motivo suficiente para mandar um gajo para a cadeia? Nesse caso, porque não mandam prender os cantores “pimba” pelo verdadeiro atentado à moral e aos bons costumes que cometem de cada vez que aparecem na TV com as suas canções de qualidade duvidosa , os seus penteados ridículos e as suas indumentárias patéticas? Há aqui muita hipocrisia no meio disto tudo, senão repare-se: se for um trolha a mandar um piropo do género “Se fosses cavalinho de carrossel, montava-te o dia todo!”, as mulheres ficam muito ofendidas, mas se aparecer o Emanuel a cantar “E se elas querem um abraço ou um beijinho, nós PIMBA!”, é vê-las aos saltos, todas contentes. Ora, por favor! O que acham que ele quer realmente dizer com aquele “PIMBA”? Abraços e beijinhos? Santa inocência...
A proibição do piropo poderá originar graves complicações jurídicas se a questão não for devidamente legislada e refira-se que tal tarefa não será fácil. É ponto assente que um piropo, para ser piropo, tem sempre um cariz sexual, sendo muitas vezes utilizado como forma de aproximação entre duas pessoas que se conhecem ou pretendem conhecer. Mas até que ponto se poderá considerar ofensivo? Como se poderá definir a fronteira entre o comentário elogioso e a ofensa sexista, axincalhante e rebaixante? E como distinguir a má-fé do simples mau gosto? Se um homem se dirigir a uma mulher e disser “Estás lindíssima!”, isso pode ser, obviamente, interpretado como um piropo, mas não me parece que ninguém se ofenda com tal comentário, bem pelo contrário. No entanto, se disser “Abençoados pais que tiveram uma filha assim!” ou “Chamem cá o Papa, que anda aqui um anjo à solta!”, tal pode ser interpretado pela mulher como uma forma grosseira de enaltecer a sua beleza, ainda que a intenção seja igualmente elogiosa sob o ponto de vista do emissor. Outra questão pertinente é a subjectividade da interpretação do piropo inerente à orientação sexual de cada pessoa. Eu, por exemplo, gosto que uma mulher me diga “És um pedaço de mau caminho!”, mas, se um gay me disser o mesmo, sou bem capaz de reagir pessimamente, do tipo “Como é que este larilas pode ter pensado que me agradaria com um comentário destes se eu tenho, indubitávelmente, jeito de macho latino???”. Quer isto dizer que a intepretação do piropo enquanto comentário elogioso ou ofensivo está excessivamente dependente da personalidade, da susceptibilidade e, porque não dizer, dos traumas, da pessoa “alvo”. Estará a Justiça portuguesa preparada para tomar decisões sobre este assunto, pondo em causa a liberdade de uma pessoa com base em critérios tão subjectivos, quando dá mostras de não conseguir decidir sequer sobre um homicídio em que o assassino é apanhado em flagrante a alvejar a vítima com dez tiros de caçadeira perante uma multidão de centenas de pessoas e filmado pelas câmaras de segurança?
Alguém está a tentar abafar a genuína cultura portuguesa amordaçando os piropadores e, se não levantarmos a nossa voz agora, em protesto contra esta loucura, amanhã estarão a amordaçar também os fadistas e os adeptos do futebol que vão aos estádios para insultar os árbitros! Não podemos permitir que isso aconteça! Temos de nos unir e expressar bem alto a nossa indignação! NÃO À PENALIZAÇÃO DO PIROPO!
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Domingo, 09.09.07

Já não há cavalheirismo

É muito comum, hoje em dia, ouvirmos as mulheres dizerem que já não há cavalheirismo e não há dúvida de que, sob um certo ponto de vista, essa é, de facto, a mais pura das verdades. Nos nossos dias, o cavalheiro sente-se como o último dos Moicanos na sua derradeira batalha, um condenado com os pés para a cova que teima em espernear e dar o seu último grito de agonia antes de cair definitivamente na tumba do esquecimento. O problema é que os tempos são de mudança e o cidadão moderno acaba por encontrar-se muitas vezes num dilema moral: por um lado, ele quer evoluir, adaptar-se aos tempos modernos e esquecer determinados comportamentos que fizeram todo o sentido no tempo dos nossos avós mas que, actualmente, se tornaram obsoletos e até mesmo ridículos em determinadas situações; por outro lado, ele ainda sente o dever de honrar os seus pais e avós e teme que a educação herdada dos seus progenitores possa ser posta em causa pelo facto de não agir de uma certa forma em determinados momentos. O resultado deste dilema é, por vezes, desastroso! Nunca sabemos ao certo como é que a pessoa com quem estamos a lidar encara esta questão e, na dúvida, optamos muitas vezes por assumir uma postura mista, ou seja, fingimos que estamos preocupados com as regras do cavalheirismo mas sem que nos sintamos suficiantemente à vontade para o demonstrar abertamente com medo de cairmos no ridículo, o que acaba por resultar numa actuação insegura e nervosa que pode arruinar uma entrevista de emprego, um contrato comercial ou um encontro amoroso. Um bom exemplo disto é aquele péssimo hábito que muitas pessoas têm de levantar ligeiramente o cú da cadeira onde estão sentados quando cumprimentam uma senhora com um aperto de mão. Por amor de Deus, meus amigos, acabemos de uma vez por todas com essas tristes figuras! Se querem demonstrar respeito pela pessoa que estão a cumprimentar então levantem-se sem rodeios e assumam uma postura correcta e confiante. Em alternativa, fiquem definitivamente sentados, pois tudo é preferível do que fazer esse gesto aparvalhado de levantar o cú com um pequeno impulso que mais parece que estão a mandar um peido.
Há pouco mais de três décadas atrás, era costume os homens usarem chapéu e mandavam as regras do cavalheirismo que, na presença de uma senhora, o retirassem da cabeça. Presentemente, não existe o costume de usar chapéu no dia a dia, mas é vulgar os jovens usarem bonés, mais por questões de moda do que propriamente como medida contra a insolação. Ora, aqui eu pergunto: como se explica a um jovem, para quem um boné não passa de um mero adereço de moda tal como umas sapatilhas “fixes” ou um cinto “baril”, que deve retirar o boné da cabeça por uma questão de cavalheirismo quando se encontra na presença de uma senhora? Se atendermos que agora é moda os jovens andarem com a roupa interior de marca à vista, mandá-los tirar o chapéu não terá, na sua perspectiva, o mesmo significado que mandá-los tirar as cuecas?
Outro costume em completo desuso é abrir a porta do automóvel enquanto a senhora entra ou sai do veículo. Esse gesto fazia sentido quando as senhoras usavam vestidos compridos, uma vez que, para elas, tornava-se complicado puxar e segurar todo aquele pano enquanto fechavam a porta do carro. Ora, nos dias de hoje, em que as mulheres usam calças e as saias são, em certos casos, praticamente reduzidas à largura do cinto, acham que alguém precisa de ajuda para abrir ou fechar a porta de um carro? Bem vistas as coisas, neste caso o tiro pode bem sair pela culatra ao cavalheiro independentemente da honestidade das suas intenções, isto porque a mulher pode bem interpretar esse gesto apenas como um pretexto para lhe apreciar as pernas enquanto ela se senta, o que, diga-se de passagem, em muitos casos até corresponde à verdade.
As mulheres, que tantas vezes se queixam da falta de cavalheirismo dos homens, acabaram por ser também uma das causas do desaparecimento desse mesmo cavalheirismo graças à sua luta pela igualdade de direitos. Na verdade, é impossível ser cavalheiro quando se convida uma senhora para um jantar à luz das velas num belo restaurante à beira-rio e ela insiste em dividir a despesa “a meias” na hora de pagar a conta. A carteira agradece essa amabilidade até porque, nos dias que correm, as mulheres conseguem ter, em muitos casos, maior disponibilidade financeira que grande parte dos homens, mas convenhamos que, com tal atitude, muito do espírito romântico e cavalheiresco vai por água abaixo.
Muitos outros exemplos deste género poderiam ser aqui referidos e que nos levariam a reflectir se de facto o cavalheirismo não deveria desaparecer completamente da face da Terra. No entanto, temos sempre de ter em consideração que tudo na vida evolui e o cavalheirismo também pode evoluir. Na prática, o cavalheiro não tem necessariamente de desaparecer mas sim adaptar-se aos tempos modernos, aos novos hábitos, às novas filosofias e estilos de vida. A questão que se põe é esta: seremos nós capazes de entender como cavalheirismo determinados actos que aos nossos olhos nos podem parecer banais, tal como eram para os nossos avós o simples acto de tirar o chapéu e abrir a porta do carro? Por exemplo, não deveríamos entender como um acto de cavalheirismo moderno quando um homem cede o comando da televisão para que seja ela a escolher o canal que quer ver mesmo quando está dar aquele jogo de futebol decisivo para o campeonato? Ou quando o homem lhe empresta o seu telemóvel depois dela ter estourado o saldo dela num telefonema para uma amiga com quem não falava há mais de... duas horas? Ou ainda quando ele se dá como culpado perante a companhia de seguros depois dela ter riscado a pintura do carro ao sair da garagem? Talvez daqui a uns anos, com a evolução dos tempos, as nossas próprias netas sejam capazes de nos fazer justiça dizendo “Os nossos avós é que eram cavalheiros! Agora, já não há cavalheirismo!”
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Quinta-feira, 16.08.07

A fábula do burro e da cabra

Era uma vez um burro que caminhava por uma estrada. Ia a curtir sozinho, cantarolando e assobiando, acreditando que aquele caminho o levaria à felicidade que tanto desejava. A certa altura, o burro encontrou uma cabra que pastava na beira do caminho e que lhe perguntou:
- “Onde vais, burro?”
- “Vou em busca da minha felicidade”, respondeu ele.
- “Isso é fantástico!”, disse a cabra. “Achas que tu e eu poderíamos ir em busca da felicidade juntos?”
- “Acho que é capaz de ser uma boa ideia!”
E seguiram os dois pela estrada fora, alegremente, cantando e rindo.
O tempo foi passando e as coisas corriam tão bem entre eles que a cabra começou a fazer planos para o futuro de ambos. Falava do vestido que iria usar no seu casamento, dos filhos que iriam ter, da casa que iriam comprar. E o burro cada vez se apaixonava mais por aquela cabra, acreditando em tudo o que ela dizia. Tão iludido ficou com os sonhos e promessas de amor que ela fazia que nem se apercebeu que, a pouco e pouco, se iam desviando do caminho principal e rapidamente se perderam no meio do campo. Foi então que a cabra parou e disse:
- “Sabes burro, estou cansada. Cheguei à conclusão que estou farta de ti. Segue o teu caminho sozinho que eu vou procurar outro burro que me faça mais feliz. ”
E dizendo isto, partiu, deixando o burro na merda.
Só então o burro percebeu que, por causa da cabra, se tinha desviado do caminho da sua felicidade. Ainda hoje ele anda às voltas, tentando recuperar o tempo perdido e redescobrir a estrada por onde seguia quando conheceu aquela cabra que lhe estragou a vida e lhe partiu o coração.
Moral da história: Escolhe bem a tua companheira de viagem! Não deixes que nenhuma cabra te desvie do teu caminho com promessas de amor e sonhos de felicidade! Basta que ela encontre outro burro que tenha uma carroça melhor do que a tua e, quando deres por ti, estarás sozinho e infeliz!
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Sábado, 28.04.07

As frondosas vegetações do Estado Novo

Não queria deixar passar as comemorações do 25 de Abril sem escrever algo alusivo a esta data, ainda que tenha de reconhecer que possuo poucos conhecimentos sobre o tema e muito menos experiências que possam ser relatadas na 1ª pessoa. Apesar de ter nascido em 1970 e, como tal, pertencer a uma geração pré-25 de Abril, a verdade é que tinha apenas quatro anos quando se deu a Revolução dos Cravos em Portugal, pelo que, quando me fazem a célebre pergunta -“Onde estavas no 25 de Abril?”, eu simplesmente respondo –“Não me lembro, mas devia estar a cagar no penico”.
A consciência que possuo de toda a envolvência política e social que rodearam este importante acontecimento da nossa História foi construída com base na informação escrita e falada que me chegou ao longo dos anos. Neste sentido, lembrei-me que viria a propósito analisar aqui uma regulamentação aprovada em 1953 pela Câmara Municipal de Lisboa (vivia-se então em plena ditadura do Estado Novo, recorde-se) que especificava os crimes e as respectivas multas a aplicar pelos polícias e guardas-florestais a todas as pessoas que procuravam “frondosas vegetações para a prática de actos que atentem contra a moral e os bons costumes”. Dito assim parece coisa grave, mas afinal, que crimes hediondos seriam esses que mereceram, da parte da CML, tão zelosa atenção? Pois, segundo o mesmo documento, a lista de crimes era a seguinte:
 
1º - Mão na mão (2$50).
2º - Mão naquilo (15$00).
3º - Aquilo na mão (30$00).
4º - Aquilo naquilo (50$00).
5º - Aquilo atrás daquilo (100$00).
6º - Com a língua naquilo (150$00 de multa, preso e fotografado). 
 
Antes de mais devo dizer que considero perfeitamente extraordinária a forma como procuraram transmitir a mensagem sem que, em momento absolutamente nenhum, fossem referidos directamente os objectos em causa e que tanto repúdio causavam. Evitando cair em banalidades do tipo "pilinhas", “pipis” e tutus”, optaram pela substituição dos ditos objectos por “aquilo”, “naquilo” e “atrás daquilo”, o que, há que reconhecer, é, pura e simplesmente, brilhante!
De resto, ficamos a saber que um casal de namorados que cometesse o crime horrendo de andar de mãos dadas na rua, atentando frontalmente contra a moral e os bons costumes, incorria numa multa de 2$50, quantia essa que, contas feitas de cabeça, corresponderia, à taxa actual, a cerca de um euro e meio. É obra!
Já a questão da “mão naquilo” e “aquilo na mão” está mal definida e era capaz de gerar alguma controvérsia. Na verdade, se um polícia apanhasse um casal em flagrante, como poderia ele decidir se teria sido a mão a ser posta “naquilo” ou se teria sido “aquilo” a ser posto na mão? A dúvida é pertinente e exigia uma maior clarificação pois, apesar de em termos práticos a coisa ser exactamente a mesma (pelo menos na minha perspectiva), o valor da multa sobe de 15$00, no primeiro caso, para 30$00, no segundo. Há aqui qualquer coisa que me está a escapar. Talvez a “mão naquilo” se refira a uma situação em que uma pessoa ande com “aquilo” de outra pessoa na mão, enquanto que o “aquilo na mão” se verifique quando a pessoa anda com o seu próprio “aquilo” na sua mão. Mas, sendo assim, não se compreende porque motivo é que considerariam mais grave (o dobro da gravidade, para ser preciso) andar com o nosso próprio “aquilo” na mão do que com os “aquilos” alheios. Não faz muito sentido, mas quem sou eu para tentar compreender estes importantes assuntos de Estado?
Apesar de tudo, a questão mais polémica é que ser apanhado “com a língua naquilo” era considerado um crime muito mais grave do que ter “aquilo atrás daquilo”, a ponto de ser punido com uma pesada multa, ser preso e (pasme-se!) ser fotografado! Pá, lá que multem e prendam ainda vá, mas fotografar é desumano! Sinceramente, não acho isso nada bem, principalmente porque o documento não especificava se as multas deviam ser aplicadas da mesma forma se os prevaricadores fossem de sexos diferentes ou do mesmo sexo. Veja-se, por exemplo, o que aconteceu ao cantor George Michael quando foi apanhado em flagrante nuns sanitários públicos com “aquilo” do namorado no “atrás daquilo” dele e que, por causa disso, se viu envolvido num escândalo a nível mundial. Se tal situação se tivesse passado em Lisboa no ano de 1953, teria pago uma simples multa de 100$00 e pronto, iria à sua vida, sem uma única fotografiazinha, não seria notícia nas revistas cor de rosa, enfim, nada (nada, excepto um andar novo, claro está)! Já o Hugh Grant, apanhado no banco de trás do seu automóvel com uma prostituta que mantinha a “lingua naquilo” dele, seria preso e fotografado! Palavra de honra, não há macho nenhum que possa entender uma injustiça destas! Agora entendo porque os militares fizeram a revolução de Abril! Pudera! Perante uma ditadura com tiques abichanados como esta, até eu me revoltaria! E o Salazar que fosse apanhar no... “atrás daquilo”!
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Segunda-feira, 23.04.07

O espirro

Vou aqui dissertar um pouco sobre o espirro. Sim, isso mesmo, o espirro, perceberam bem. O espirro é algo tão natural e comum nas nossas vidas que nem pensamos na importância que ele assume para a nossa saúde e, em muitas situações, na influência que tem sobre o nosso comportamento social. Ao longo da História, já muita gente escreveu artigos, piadas e teses mais ou menos sérias sobre o peido e o arroto, mas não foram muitos os que se debruçaram sobre as questões do espirro. Na verdade, todas as pessoas gostam de dar o seu peidinho ou arrotinho pela sensação de alívio que proporcionam, mas o mesmo não acontece com o espirro sobre o qual recai um certo negativismo. O espirro é, por assim dizer, o parente pobre das manifestações corporais, e como eu não gosto de injustiças e sou pela defesa dos mais fracos e desprotegidos, aqui estou, de alma e coração, a fazer-lhe justiça.  
Será que existem verdadeiros motivos para detestar o espirro? Segundo os peritos, o espirro (ou esternutação, como lhe quiserem chamar) é um mecanismo de defesa do organismo que permite eliminar bactérias, vírus ou substâncias alojadas nas vias respiratórias através da expulsão compulsiva do ar do nariz e da boca. Nesta perspectiva, deveríamos ficar muito felizes pelo facto da Mãe Natureza nos ter proporcionado uma arma defensiva tão poderosa como esta, capaz de arremessar os nossos males a longas distâncias. Há, no entanto, o reverso da medalha. Se considerarmos que o espirro sai a uma velocidade que pode atingir uns espantosos 250 quilómetros por hora, é fácil perceber que esta eficiente defesa de quem espirra transforma-se rapidamente numa violenta agressão para quem se encontra à sua volta. Vai um tipo sossegado a ler o jornal no transporte público e, de repente, é torpedeado pelo indivíduo do banco de trás com inúmeras bactérias projectadas pelo ar a uma velocidade de 250km/h. Vistas as coisas por este prisma, a única forma de ficarmos em vantagem nesta guerra é espirrando mais forte e mais rápido do que toda a gente à nossa volta, o que nem sempre é fácil. Transforma-se assim uma pacata viagem de autocarro numa espécie de tiroteio ao estilo "Western", com chumbo quente a voar em todas as direcções, no final do qual ficará vivo o que tiver o dedo mais rápido no gatilho. Pensando bem, não há dúvida de que a melhor vacina contra a gripe é mesmo deixar de andar de autocarro.
Há situações em que espirrar pode ser bastante inconveniente. O espirro surge, muitas vezes, de forma totalmente inesperada e em alturas em que não dá jeito absolutamente nenhum, o que pode ter consequências gravíssimas. Por exemplo, imaginemos que estamos a beijar a nossa namorada (ou namorado, conforme o sexo... ou melhor... a preferência sexual do leitor... esqueçam!) e, de repente, damos um espirro. O melhor é começar a pensar em partir para outra porque, esse namoro, já era! Muito comum também é o embaraço causado por um número ilimitado de espirros sucessivos, perfeitamente cadenciados, dados no cinema, num concerto ou no meio de um casamento. Está o padre a perguntar ao noivo se aceita a noiva como legítima esposa e ouve-se aquele irritante som de alguém lá atrás a espirrar incessantemente. Fica o padre, os noivos e os restantes convidados com aquele sorriso amarelo, como quem diz -“Eu mandava-te espirrar lá para fora, mas estamos na casa de Deus e parece mal!”. Uma coisa é certa: seja lá onde for que nos apeteça espirrar, espirremos! A tentativa de evitar que o espirro saia tapando o nariz é perigosa pois pode provocar a ruptura dos tímpanos devido à pressão do ar no interior do canal auditivo. Evitem fazer figuras do tipo –“Ah, fiquei surdo para o resto da vida, mas não interrompi o padre!”
Uma particularidade bastante curiosa do espirro é o facto de não conseguirmos espirrar com os olhos abertos. Há quem diga que isso é uma forma do corpo impedir que os olhos saltem das órbitas quando espirramos, mas isso é ridículo. Trata-se apenas de uma reacção nervosa dos olhos provocada pelo estímulo da passagem do ar no nariz. Só faltava mesmo que os olhos saltassem das órbitas quando espirramos, já viram a triste figura que faríamos numa festa –“Olhe, desculpe, acho que os meus olhos cairam literalmente no seu decote!” ou na discoteca –“Cuidado, por favor, não me pise no olho!”   
Em vários países do Mundo, o espirro é uma coisa boa. Na Índia, por exemplo, espirrar significa que alguém amado está a pensar em ti (não quero nem imaginar o que os indianos pensam sobre o peido!). Aquilo que as pessoas dizem quando alguém espirra também varia conforme o espírito com que cada povo encara o espirro. Em Porto Rico, quando uma pessoa espirra repetidamente diz-se primeiro “Salud”, depois “Dinero” e depois “Amor” (ao quarto espirro acho que já não dizem nada. Eu cá diria “Follar”, por exemplo). Ora, em Portugal, o mau hábito de dizer “santinho” quando alguém espirra não contribui absolutamente nada para mudar o negativismo que existe em torno do espirro. Esse ridículo costume pode ter tido origem durante as epidemias de peste que assolaram o nosso país por diversas vezes ao longo da sua História. Quando alguém espirrava, isso significava que poderia estar já infectado pelo vírus da doença, pelo que as pessoas gritavam “SANTINHO!” para apelar aos santos que tivessem piedade do doente (já praticamente condenado à partida), ou que as protegessem a elas próprias de serem também infectadas. Talvez pelos mesmos motivos, em Inglaterra as pessoas diziam “God bless you!”, ou seja, “Deus te abençoe!”, o que na prática significava “Já tás fodido!”
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Domingo, 22.04.07

Eu vou com os loucos!

Hoje chamaram-me louco. Assim, de caras, com todas as letras, L-O-U-C-O! Provavelmente não foi esta a primeira vez que o fizeram na minha vida mas, das vezes anteriores, a coisa afectou-me de tal forma que... nem me recordo. Desta vez, a situação é diferente porque não me deixam outra alternativa senão reconhecer que têm razão. Eu estou efectivamente, objectivamente e indiscutivelmente louco varrido, maluco, pirado, chanfradinho de todo! Fiquei assim por uma mulher (Por que outro motivo poderia ser??? De todos os loucos do Mundo, 99% devem ter ficado assim por uma mulher!) com quem partilhei quase uma década da minha vida, com quem concebi projectos e planos para o meu futuro, com quem alimentei sonhos de casamento, de filhos, de casa, de cães, de um canteiro com uma roseira, enfim, de todas aquelas coisas que toda a gente diz que são banais mas que, no fundo, no fundo, toda a gente deseja ter a dada altura das suas vidas quando se cansa de andar a abanar o capacete pelas discotecas. Uma mulher que, após milhares de juras de amor e de fidelidade, de milhões de beijos e centenas de quecas (era bom que tivesse sido ao contrário, mas eu não sou o Super-Homem), me abandonou numa certa noite alegando que estava farta de mim. Assim, nem mais nem menos. Fartou-se. E lá se foram os filhos, a casa, os cães e a roseira pela cagadeira abaixo de uma assentada só! O problema (e aqui é que reside a maior evidência da minha loucura) é que isto aconteceu há quatro anos atrás e eu ainda penso nessa mulher como se ela estivesse presente a cada dia da minha vida, como se ela fosse chegar à minha beira a qualquer momento e dizer, como disse tantas e tantas vezes antes, -"Amor, cheguei!", e abraçar-me, beijar-me e contar-me como lhe correu o dia.Os meus amigos bem me disseram -"Pá, esquece essa cabra, parte para outra, há por aí paletes de gajas boas!" e eu parti. Não sou o Brad Pitt, refira-se, mas ainda sei levar a água ao meu moinho. Em quatro anos tive outras tantas namoradas, mas quando a ilusão inicial se dissipava à luz da razão (ou da demência, vá-se lá saber), lá vinham as inevitáveis comparações e as saudades da dita cabra e lá voltava eu para o meu curral. Sozinho, claro.

Um dia, decidi procurar ajuda de um psicólogo. Entrei, sentei-me na poltrona (que aquilo do paciente deitar-se num sofá, pelos vistos, só acontece na televisão, eu é que não sabia disso porque nunca tinha estado em nenhum consultório desse género e fiquei com ar de parvo a pensar "E agora, onde é que eu me deito?") e o tipo perguntou-me - "Então o que o traz por cá?". Depois de lhe contar a minha história, disse-me: -"Esse é um problema cuja solução terá de ser encontrada dentro de si", ao que eu respondi -"Obrigado!". Saí e nunca mais lá pus os pés.

Que se fodam os teóricos do amor! Se o amor fosse uma ciência exacta, regia-se por teoremas e corolários e bastava ter uma máquina de calcular para encontrar a solução para tudo! Máquinas de calcular não me faltam, soluções é que é o caralho! O ser humano é, por si só, um Universo de emoções, sentimentos e experiências. Ora, da mesma forma que seria ridículo a Humanidade procurar a solução para os problemas do seu Mundo no Universo ao lado, também é perda de tempo uma pessoa procurar a solução dos seus problemas noutra pessoa, mesmo que essa possua um canudo e uma poltrona. Só lamento ter pago 60 euros para perceber algo tão óbvio!

Hoje, cheguei finalmente a uma conclusão. Durante quatro anos eu arrastei penosamente atrás de mim uma corrente com uma gigantesca bola de ferro, mas não pelos motivos que, à partida, eu imaginava. Eu acreditei que não podia continuar a amar aquela mulher simplesmente porque me disseram que é assim que as coisas funcionam, que os namorados, quando acabam, têm de substituir o amor pelo ódio que são duas faces da mesma moeda, que ela me maltratou, abandonou e fugiu e o verdadeiro macho latino não pode aceitar isso de ânimo leve, que isto e aquilo e etcetera e tal. Na verdade, o maior peso que carreguei na minha consciência foi a tentativa frustrada de esconder os meus sentimentos por vergonha ou por receio daquilo que pensassem de mim. Sempre fui um actor de merda e andei a gastar as minhas energias num teatrinho que me deixou exausto. Dificilmente conseguiria convencer alguém de que deixei de a amar, por isso, assumo a minha loucura de peito aberto! Amo-a, sempre a amei e nunca deixei de a amar! Internem-me, foda-se!!! Estranho Mundo este em que quem ama é considerado louco, merecedor de internamento imediato, e aqueles que se fartam do amor são considerados sãos e equilibrados mentais! Pois que se fodam os sãos, então! Eu vou com os loucos!

publicado por Rui Moreira às 12:47 link do post | comentar | favorito

Ai tu queres ser feliz, idiota?

Eu não sou pessoa de acumular superstições, palavra de honra que não sou, mas há alturas da minha vida em que fico com sérias dúvidas se será efectivamente a Física a ditar as leis deste Mundo em que vivemos. O Einstein que me perdoe esta traição mas é a mais pura das verdades. Nos tempos da faculdade, nunca me preocupei com aquela cena de entrar com o pé direito na sala de exame e ria-me dos indivíduos que, não tendo estudado nada, alimentavam a secreta esperança de que, entrando com o pé direito, haveria de se dar o milagre de sair exactamente aquela pergunta, a única cuja resposta eles tinham perdido dez minutos a decorar. Também não me preocupo com os gatos pretos que se atravessam no meu caminho. Sinceramente, nunca gostei de gatos, sejam eles pretos, brancos ou amarelos, pelo que a cor não me interessa absolutamente nada no momento de lhes dar um chuto (Abro aqui um parêntesis para ressalvar que neste capítulo não se incluem certas gatinhas que se atravessaram no meu caminho e que, essas sim, já me deram muita sorte nalguns casos e muito azar noutros. Mas isso é outra conversa. Adiante que se faz tarde). No entanto, sempre tive a mania de que os anos ímpares me dão azar, talvez porque as piores coisas que alguma vez me aconteceram na vida tiveram a infeliz coincidência de calharem em anos ímpares. Mesmo assim, no início de cada ano ímpar, eu tento sempre renovar o meu optimismo e pensar “Naaa, desta vez não será assim! Este será o melhor ano da minha vida!”. Pois...
No primeiro minuto de 2007, ressoava ainda pelas paredes a última badalada da meia-noite e as pessoas empurravam as uvas-passas pela garganta abaixo a goladas de champanhe, dediquei-me eu em silêncio a um ritual pessoal de longa data. Há muitos anos que, nesta ocasião, gosto de fazer uma introspecção, rever mentalmente aquilo que fiz no ano anterior e estabelecer os meus objectivos para o novo ano que ali começa. Dantes, quando ainda me regia pelas ilusões próprias da juventude, esta operação mental demorava alguns minutos dada a extensão da lista de objectivos, geralmente agravada pelo acumular das tarefas anteriores não concretizadas. Actualmente, bastam-me poucos segundos para o fazer. Acho que cheguei a uma fase da vida em que as coisas que verdadeiramente desejo e me fariam feliz se contam pelos dedos de uma mão.
No entanto, o destino é irónico. Irónico e filho da puta. Por vezes penso nele como um tipo gordo, feio, arrogante, mal-criado, a cheirar a vinho carrascão, que arrota e se peida, e se ri dos disparates que ele próprio inventa. Está sentado numa cadeira lá em cima no céu de onde nos controla com cordéis presos às mãos e aos pés, como se todos nós não fossemos mais do que meros bonecos num teatrinho de marionetas. No início deste ano, o gordo leu os meus pensamentos e disse -“Ai tu queres ser feliz, idiota? Então espera lá que já te fodo!”. E começou a dança. À minha avó, senhora de 83 anos, detectaram-lhe um tumor maligno no intestino e, em menos de dois meses, operaram-na três vezes, sempre com prognóstico muito reservado. Aguentou, mas continua agarrada a vida como pode, a rezar para que o gordo não lhe corte os cordéis e a deixe cair de vez. Ao meu pai detectaram-lhe um tumor maligno no estômago e sacaram-lhe os dois fora (o tumor e o estômago), mais um pedaço do fígado, uma fatia do baço e um bom bocado da sua força e alegria. Para os primeiros meses do ano ímpar, não está nada mal, não senhor! Esforçaste-te bem desta vez, gordo do caralho, mas uma coisa te digo: aproveita agora para te rires porque, no dia em que eu chegar aí acima, vais levar com a cadeira nos cornos! Tão certo como E=mc2!
publicado por Rui Moreira às 12:15 link do post | comentar | favorito

Cheguei ao Inferno, não gostei e vim embora

Acabei de ler um livro cujo enredo já conhecia do cinema mas que não deixou, ainda assim, de constituir uma boa leitura: O nome da Rosa, de Humberto Eco. Quem lê esta história, passada em plena idade média, apercebe-se de como a Humanidade vivia aterrada com questões sobrenaturais, às quais atribuía a origem de tudo o que de mal acontecia. Bons tempos aqueles, digo eu, em que as pessoas andavam na linha com medo de cair no poço dos infernos ao mais pequeno pecado e em que havia um bode expiatório sempre disponível para acartar com as culpas das tragédias: o Diabo!
Hoje em dia, a Humanidade perdeu o respeito pelas coisas infernais e fez muito mal. Substituiu-se o Diabo, Belzebú, Demo, ou como lhe quiserem chamar, por processos jurídicos morosos e dispendiosos, cujo resultado final, em regra, não interessa nem agrada a ninguém. Por exemplo, caiu uma ponte morrendo dezenas de pessoas e logo se procurou encontrar culpados e responsáveis, num processo que se arrastou penosamente durante meses, apenas para chegarem à brilhante conclusão de que, afinal, a culpa não foi de ninguém em concreto. Ora, não teria sido mais simples dizer logo que a culpa foi do Demo? Sempre se poupava dinheiro dos contribuintes e as famílias das vítimas não tinham agora de ver a sua revolta aumentada por verem a culpa morrer solteira. Era tudo tão simples e barato, não sei porque resolveram complicar...
Outro aspecto curioso é a ideia inocente que as pessoas têm, presentemente, do Inferno. Dantes, os pais diziam aos putos –“Se te portas mal, vais para o Inferno!”, e os putos ficavam de olhos arregalados e o cu apertadinho porque sabiam que isso era uma coisa má, mesmo muito má! Hoje, muitas vezes ouvimos os adeptos do Benfica dizerem –“Vou levar o meu filho ao  Inferno da Luz!” e lá vão eles, todos felizes, e até pagam para lá ir. Se descontarmos o sofrimento dos próprios benfiquistas ao verem a forma como o SLB passou a jogar desde que lá chegou o anjinho do Fernando Santos, a verdade é que os adeptos conceberam uma ideia comodista de um Inferno em que eles próprios assumem o papel dos diabos, comodamente sentados nas cadeiras a beber uma coca-cola fresquinha enquanto que as pobres almas do árbitro e dos jogadores são insultadas e atormentadas das piores formas que se possa imaginar. Assim e fácil conceber Infernos! Curiosamente, depois queixaram-se quando chegou lá a claque do FCP e, esses sim, transformaram aquilo num verdadeiro Inferno, com petardos a rebentar, cheiro a enxofre no ar, gente ferida e a sangrar, dor, angústia, sofrimento, gritos. E pronto, lá comecaram os processos para apuramento de responsabilidades, cada um a atirar com as culpas para os outros, e já toda a gente sabe como isto vai acabar. Mas afinal o que queriam? Aquilo é ou não é um Inferno? Decidam-se, por favor! Se não sabem o que querem, não brinquem com coisas sérias!
Já repararam bem no aspecto abichanado dos Diabos actuais? Alguém teria respeito ou medo de um gajo todo nu, pintado de vermelho, com um par de cornos na testa e um rabo que mais parece um bocado de mangueira enfiada no cu? Tenham dó! Onde está o verdadeiro Belzebú, criatura horrenda com vinte metros de altura, olhos flamejantes e hálito a enxofre, que incendeia tudo à sua volta com as chamas da sua forquilha, queimando e atormentando as almas pecadoras? Reformou-se? Está de férias nas Caraibas? É preciso ir lá chamá-lo e rápido, que este país, sem a sua gestão competente, está a virar um Inferno!
publicado por Rui Moreira às 02:31 link do post | comentar | favorito

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